Escribir contra la niebla

Quando pões o ponto final

Os bastidores emocionais de um romance

Quando pões o ponto final
Quando pões o ponto final Antonio de Rosa

Há um momento estranho quando terminas um romance.

Durante meses —por vezes anos— conviveste com personagens que só existiam para ti. Decidiste onde vivem, do que têm medo, quem amam, quando mentem e o que estão dispostos a perder. Passaste mais horas com alguns deles do que com pessoas reais.

E um dia escreves a última palavra. Ponto final. Em teoria, deverias sentir alívio. Mas nem sempre acontece.

Porque terminar um romance não significa que a história tenha terminado dentro de ti.

Às vezes é precisamente nessa altura que começas a descobrir tudo o que ela deixou.

O que o leitor nunca vê

O leitor recebe um livro terminado, não vê as versões anteriores. Não conhece aquele capítulo que desapareceu após várias semanas de trabalho nem sabe que uma personagem teve outro nome durante metade do manuscrito. Também não imagina as cenas que escreveste convencido de que eram magníficas e que, meses depois, eliminaste sem contemplações.

E provavelmente é melhor assim. O leitor não precisa de conhecer os andaimes, mas o escritor recorda-os. Os dias bons e, sobretudo, alguns dos maus. As tardes em que uma cena não funcionava. As pesquisas específicas na internet a horas impróprias. Os momentos em que a história ficou parada e em que talvez não soubesses como terminá-la.

Também ficam recordações que não pertencem exatamente ao romance. Porque enquanto escrevemos, a vida continua a acontecer e acaba por se filtrar entre as páginas.

Há capítulos que me lembram sempre o lugar onde os escrevi. A maioria no meu estúdio, em frente ao meu computador. Mas há outras cenas que escrevi numa cadeira a apanhar a fresca da tarde na minha aldeia. Outras durante uma espera nas atividades extracurriculares dos miúdos. Ou a última do romance que estou a terminar: na praia.

Cenas associadas a um determinado momento da minha vida. Até preocupações pessoais que nunca aparecem explicitamente no livro mas que, de alguma forma, estão lá. O leitor não as consegue ver. Eu sim.

Quando os personagens deixam de te pertencer

Depois chega a publicação e acontece algo ainda mais estranho. O romance deixa de ser apenas teu. Até esse momento podes mudar qualquer coisa.

Podes matar alguém, salvá-lo, modificar uma conversa, eliminar cinquenta páginas ou decidir que aquilo que parecia fundamental já não serve.

Mas chega um dia em que o livro é impresso. E então acabou: o que está escrito, escrito fica. Os personagens saem de casa e passam a pertencer também aos leitores. Isso tem algo de maravilhoso e algo de inquietante, porque os leitores descobrem coisas que tu não tinhas previsto. Um diz-te que a sua personagem favorita é alguém que tu consideravas secundário. Outro interpreta de uma maneira completamente diferente uma cena que para ti tinha um significado claríssimo. Há quem se emocione precisamente num momento que nunca pensaste que pudesse emocionar. E então compreendes algo importante:

o romance que escreveste e o romance que cada leitor lê não são exatamente o mesmo.

Cada pessoa completa a história com a sua própria experiência, e aí o escritor perde o controlo. Creio que essa perda faz parte de publicar, mas custa a habituar.

O estranho vazio depois do final

Há outro sentimento de que se fala pouco: o vazio.

Viveste durante muitíssimo tempo a pensar numa história.

Uma parte da tua cabeça continua a procurar soluções, a imaginar cenas ou a lembrar-te que tens de verificar determinado dado histórico.

E de repente já não é preciso, o romance está terminado. É como abandonar uma casa onde viveste durante muito tempo. Sabes que era o momento de partir, mas ainda te lembras de onde o chão rangia.

Suponho que é por isso que muitos escritores começamos logo outra história. Não sei se é sempre por termos algo novo para contar, talvez às vezes sintamos simplesmente falta de ter um lugar para onde voltar.

Depois chegam as opiniões

E então começa outra fase. O livro já está no mundo e começa a regressar convertido em opiniões.

Uma pessoa pensa que está preparada para ouvir qualquer coisa, embora nem sempre seja verdade. As opiniões positivas alegram, claro. Muitíssimo.

Quando alguém te diz que uma cena a emocionou ou que procurou informação sobre um acontecimento histórico porque queria saber o que havia de verdade no que acabara de ler, sentes que parte de todo aquele trabalho valeu a pena.

Mas também existe uma estranha vulnerabilidade, porque o leitor está a opinar sobre um livro. Tu sabes disso.

No entanto, durante anos esse livro fez parte da tua vida e separar as duas coisas nem sempre é fácil. Com o tempo aprende-se, ou assim espero.

Há coisas que ficam cá dentro

Creio que cada romance deixa algo. Não necessariamente um ensinamento extraordinário. Às vezes simplesmente uma forma diferente de olhar para determinado lugar, uma personagem que recordas com carinho, uma investigação que despertou uma curiosidade nova ou uma cena que ainda te emociona, embora a tenhas lido cinquenta vezes.

Também deixa cansaço, dúvidas, erros que agora vês com clareza e aquela inevitável pergunta que surge quando tudo termina:

Poderia ter feito melhor?

Seguramente sim, poderíamos sempre fazer melhor. Essa é provavelmente uma das razões pelas quais continuamos a escrever. O romance seguinte contém tudo o que aprendemos no anterior. E também novos erros que ainda não sabemos que estamos a cometer.

Deixar partir uma história

Talvez escrever um romance consista também em aprender a despedir-se.

Primeiro constróis a obra, depois corriges, proteges, defendes, tentas que encontre leitores e, finalmente, tens de aceitar que já não podes acompanhá-la sempre.

Há um momento em que toca deixá-la caminhar sozinha enquanto tu começas outra história, mas ela nunca se vai embora de vez. Porque o leitor leva o livro e o escritor fica com os bastidores, com as cenas que não entraram, com as dúvidas, com as madrugadas, com as pequenas vitórias e com tudo aquilo que ninguém encontrará impresso em nenhuma página.

Talvez essa seja a parte invisível de escrever um romance: quando o livro chega às mãos do leitor, a história começa para ele.

Para o escritor, de certa forma, acaba de terminar e resta aprender a conviver com o que ela deixou cá dentro.

Quando terminas um romance que te marcou, custa-te despedir das personagens ou fechas o livro e passas rapidamente para outra história?

Obrigado por continuares desse lado do ecrã.

Lemo-nos na próxima semana.

Antonio de Rosa

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