Escribir contra la niebla

Escrever enquanto duvidas de ti próprio

Escrever enquanto duvidas de ti próprio Antonio de Rosa

Há dias em que escrever parece fácil.

As frases saem, as personagens respondem, a cena avança e temos a sensação de saber perfeitamente o que estamos a fazer.

E depois há os outros dias.

Aqueles em que nos sentamos à frente do computador, relemos o que escrevemos e pensamos que talvez não tenhamos a mínima ideia de como se escreve.

Nem sempre se escreve a partir da segurança.

Às vezes escreve-se a partir da intempérie.

Daquele lugar incómodo em que duvidamos de uma frase, de uma cena, de uma personagem, de um romance inteiro e, se o dia corre especialmente mal, até de nós próprios.

Creio que se fala pouco dessa parte do ofício.

Fala-se muito de disciplina, de técnica, de estruturas narrativas, de construção de personagens ou de como encontrar uma voz própria. Tudo isso importa, claro.

Mas há algo mais difícil de ensinar:

como continuar a escrever quando não tens a certeza de que o que estás a fazer vale a pena.

Acontece-me a mim.

Há momentos em que termino uma cena e gosto dela. Releio-a no dia seguinte e já não gosto tanto. Uma semana depois, volto a encontrar-lhe sentido. E, ao fim de um mês, penso que talvez devesse ser toda alterada.

Não sei se isso é insegurança ou simplesmente escrever.

Provavelmente, um pouco das duas coisas.

O problema começa quando a dúvida deixa de servir para melhorar o texto e começa a impedir-te de avançar.

Porque duvidar também é útil.

Uma dúvida pode fazer com que revejas uma cena que não funciona, que procures uma palavra melhor ou que descubras que uma personagem está a agir apenas porque a trama o exige, e não porque agiria realmente assim.

Essa dúvida ajuda.

A perigosa é outra.

A que diz:

E essa voz tem uma particularidade bastante desagradável: encontra sempre argumentos.

Se uma publicação corre mal, diz-te que não interessas.

Se um romance vende pouco, recorda-te os números.

Se lês um escritor extraordinário, aproveitas para te comparares.

Se recebes dez comentários positivos e um negativo, adivinha qual é que se repete na tua cabeça durante toda a semana.

Somos assim.

Ou, pelo menos, eu sou.

Durante muito tempo pensei que os escritores experientes deixavam de sentir essas dúvidas. Que chegava um momento em que se dominava o ofício, a pessoa sentava-se em frente à página e escrevia com a tranquilidade de quem sabe exatamente o que está a fazer.

Tenho cada vez mais a certeza de que não funciona assim.

Talvez as dúvidas mudem.

Talvez se aprenda a conviver com elas.

Mas não desaparecem.

E, na verdade, nem sei se seria bom que desaparecessem por completo.

Um escritor absolutamente convencido de tudo o que escreve provavelmente deixaria de rever, de ouvir e de aprender.

A insegurança, em certa medida, obriga-nos a olhar duas vezes.

O problema é quando nos obriga a não olhar nenhuma.

Quando uma página em branco começa a parecer uma sentença.

Quando apagamos antes de terminar.

Quando deixamos uma história a meio porque decidimos que não vale a pena antes de lhe darmos a oportunidade de existir.

É preciso aprender a estabelecer limites.

Eu tento fazê-lo de uma forma bastante simples: separar o escritor do editor.

Quando escrevo uma primeira versão, tento avançar.

Nem sempre o consigo, mas procuro não me deter continuamente a julgar cada frase. Há momentos para corrigir, polir e eliminar. Mas, se transformar cada parágrafo num exame, nunca mais acabo.

Parece-me importante não confundir ambos os momentos.

Também aprendi outra coisa: nem tudo o que escrevemos tem de ser brilhante.

Custa aceitar isso.

Gostaríamos que cada frase fosse memorável, que cada capítulo tivesse tensão, que todas as personagens fossem inesquecíveis.

Mas um romance constrói-se também com frases que simplesmente cumprem o seu papel.

Com cenas que ligam outras cenas.

Com páginas que hoje parecem medíocres e amanhã, depois de corrigidas, encontram o seu lugar.

A primeira versão não tem de demonstrar que sabes escrever.

Tem é de existir.

Haverá tempo depois para a transformar em algo melhor.

Talvez essa seja uma das melhores formas de conviver com a insegurança: não exigir ao que acaba de nascer o aspeto de algo terminado.

Porque a comparação também nos faz muito mal.

Lemos um romance publicado, corrigido pelo autor, revisto por editores e trabalhado durante meses ou anos, e comparamo-lo com o nosso rascunho de terça-feira à tarde.

E, claro, perdemos.

Vamos perder sempre nessa comparação.

O mesmo acontece quando observamos o percurso de outros escritores.

Vemos o livro publicado, a apresentação cheia, as críticas, as fotografias, as vendas.

Não vemos as versões descartadas.

As noites em que estiveram prestes a desistir.

As dúvidas.

Os manuscritos que talvez ninguém quis.

A insegurança também se alimenta de comparar o nosso interior com a montra dos outros.

E isso é bastante injusto.

Não tenho uma receita para deixar de duvidar.

Se a tivesse, provavelmente não estaria a escrever esta *newsletter*.

Mas aprendi uma coisa:

Não é preciso sentirmo-nos seguros para continuar a escrever.

Essa é talvez a ideia que mais me interessa.

Não precisamos de nos sentar à frente do computador convencidos de que estamos a escrever um grande romance.

Às vezes basta confiar no processo.

Voltar a tentar.

Há dias em que a confiança chega depois do trabalho e não antes.

E talvez isso também seja escrever.

Avançar apesar do nevoeiro.

Não porque saibamos exatamente para onde vamos, mas porque ficar parado também não nos levará a lado nenhum.

A insegurança pode acompanhar-nos.

O que não podemos permitir é que ela nos expulse da página.

Acontece-te algo semelhante quando tentas criar alguma coisa? Precisas de te sentir seguro para começar, ou a confiança aparece depois, quando já estás em marcha?

Obrigado por continuares desse lado do ecrã.

Lemo-nos na próxima semana.

Antonio de Rosa

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