Quando o algoritmo parece escrever melhor do que nós
Vivemos num tempo estranho.
Podemos passar meses ou anos a escrever um romance, semanas a corrigir um capítulo e horas à procura da palavra exata para uma frase. Isso é o normal num processo de escrita.
Mas um dia publicamos uma fotografia, um vídeo de quinze segundos ou uma ocorrência escrita à pressa e acontece que isso chega a muito mais pessoas do que tudo o anterior.
E então surge uma dúvida incómoda:
Importa mais o que contamos ou saber como conseguir que nos vejam?
Desde que comecei a levar mais a sério as redes sociais como parte do meu trabalho de escritor, aprendi algo que ao início me custava a aceitar: publicar não basta.
Nem sequer publicar algo bom basta.
Há horários, formatos, vídeos, fotografias, tendências, chamadas à ação, frequência de publicação e uma data de pequenas decisões que, em teoria, ajudam a que uma plataforma considere que o teu conteúdo merece ser mostrado a mais gente.
E a pessoa acaba por aprender palavras que jamais pensou que seriam precisas para escrever romances.
Alcance.
Interação.
Retenção.
Impressões.
Conversão.
De repente, parece que o escritor também tem de ser especialista em marketing, criador de conteúdo, designer, editor de vídeo e estratega digital.
E aí começa o ruído.
Porque uma coisa é utilizar as redes para dar a conhecer o teu trabalho e outra muito diferente sentir que estás a trabalhar para elas.
Há dias em que tenho a impressão de que dedico mais tempo a pensar como contar do que a escrever.
E isso tem algo de absurdo.
Podes passar uma tarde inteira a preparar uma publicação sobre documentação histórica, sobre a construção de uma personagem ou sobre uma decisão narrativa que te levou semanas a resolver. Publicas convencido de que pode interessar e quase não obténs resposta.
No dia seguinte publicas algo muito mais simples e, por alguma razão que não compreendes totalmente, funciona muitíssimo melhor.
Então olhas para as estatísticas.
Tentas encontrar uma explicação.
Foi a hora?
O formato?
A primeira frase?
A fotografia?
Ou simplesmente aquele dia o algoritmo decidiu ser generoso?
O perigoso começa quando deixamos que esses números entrem no processo criativo.
Quando pensamos que um tema não interessa porque uma publicação teve pouco alcance.
Quando descartamos uma ideia porque não gerou comentários.
Quando começamos a escrever a pensar antes em como será partilhado do que no que queremos contar.
Aí é onde convém travar.
Porque o algoritmo tem uma vantagem enorme sobre nós: não precisa de paciência.
Nós precisamos.
Um romance precisa de tempo.
Um leitor precisa de tempo.
Uma carreira como escritor precisa de muitíssimo tempo.
No entanto, as redes sociais habituam-nos a esperar uma resposta imediata. Publicamos algo e, poucos minutos depois, já estamos a ver quantas pessoas o viram. Se funciona, sentimos que acertámos. Se não funciona, procuramos logo o que fizemos de errado.
E nem sempre fizemos algo de errado.
Às vezes uma boa publicação passa despercebida.
Às vezes um bom livro demora anos a encontrar leitores.
Às vezes o que merece permanecer não é precisamente o que melhor sabe aparecer.
Creio que esse é um dos grandes conflitos de quem tenta criar algo neste momento.
Mas também precisamos de nos proteger do ruído.
Não podemos permitir que um número decida o que vale a pena escrever.
As redes podem servir para abrir uma porta, mas atrás dessa porta tem de haver algo.
Uma história. Uma voz. Um livro.
Algo que continue a fazer sentido quando a publicação tiver desaparecido do mural e o algoritmo já estiver à procura de outra coisa para mostrar.
Talvez o desafio não seja ganhar ao algoritmo.
Talvez seja utilizá-lo sem acabar a escrever para ele.
Aparecer quando pudermos.
Mas escrever para permanecer.
—Alguma vez descobriste um livro, um filme ou uma canção muito depois do seu lançamento e pensaste: «Como é possível que não tivesse conhecido isto antes?»?
Obrigado por seguires do outro lado do ecrã.
Lemo-nos na próxima semana.
Antonio de Rosa
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