NÃO ÉS TU, É O ALGORITMO
🖋️ Conto da semana
O ALGORITMO NÃO SE ENGANA
Eram apenas 8h30 da manhã e Adolfo já ia no segundo café. Nos últimos tempos dormia pouco e mal. Talvez fossem aqueles malditos ecrãs: o telemóvel, o tablet quando a mulher punha qualquer coisa na televisão que a ele não interessava muito. Ou talvez, simplesmente, estivesse a ficar velho.
Trabalhava naquele posto há vinte e cinco anos. Tinha sobrevivido a reestruturações, fusões e mudanças de sucursal. Até a uma tentativa de assalto em que esteve prestes a borrar-se todo quando o tipo lhe apontou uma pistola.
Não fora um homem corajoso, mas fora cumpridor.
Talvez por isso o algoritmo o tivesse declarado prescindível.
O relatório da aplicação, após cruzar os dados de todos os trabalhadores, tinha-lhe colado uma etiqueta limpa, assética: «Não rentável no futuro».
A mensagem chegou sem emoção alguma, como se tivesse sido redigida por uma inteligência artificial. Era o único e-mail daquela manhã na sua caixa de entrada. Os colegas — todos mais novos — olhavam-no com compaixão. Adolfo levantou ligeiramente o lábio numa careta irónica. Eram tão altivos que não pensavam que os próximos podiam ser eles, mal deixassem de ser rentáveis.
Caminhou até ao gabinete de recursos humanos com passo anónimo. Receberam-no rostos tensos, sorrisos forçados e frases feitas, vazias, ditas com o mesmo tom de quem anuncia a meteorologia ou os resultados desportivos.
Voltou à sua secretária sem dizer palavra. Resignado. Aquilo não o surpreendia de todo; já o vira antes.
Recolheu os seus poucos pertences e meteu-os numa caixa de plástico transparente de tamanho médio, daquelas para guardar roupa, comprada sem dúvida num bazar chinês. Saiu pela porta sem se despedir e sem olhar para trás.
Já em casa, pegou no tablet e percorreu as notícias. Uma delas arrancou-lhe um sorriso sarcástico.
O seu banco — o mesmo que acabava de o despedir — tinha concedido um crédito a um cliente com dívidas, sanções e processos abertos. O algoritmo considerava-o arriscado, mas rentável.
O algoritmo não se engana.
Apenas decide quem merece ser salvo.
✒️ Conselho de escrita
A injustiça funciona melhor quando é quotidiana.
Este conto acerta porque não precisa de grandes discursos nem cenários futuristas. Tudo é reconhecível: o café, o escritório, o e-mail frio, a caixa do chinês para levar uma vida inteira.
Quando escreveres sobre sistemas injustos, reduz o foco. Não fales do algoritmo como conceito, mas sim de como afeta alguém concreto, com nome, idade e rotinas. A identificação do leitor é o verdadeiro golpe.
📚 Sobre os contos de tecnologia e desumanização
Este tipo de histórias não fala realmente de máquinas, mas sim de como os humanos se escondem atrás delas. O algoritmo não despede, não julga, não decide: fazem-no as pessoas, mas sem assumir a responsabilidade.
São contos incómodos porque questionam uma ideia muito difundida: a de que o automático é justo. E não há nada mais perigoso do que uma injusticia apresentada como neutral.
A máquina não tem consciência.
Mas alguém decidiu que isso não importava.
📖 Novidades Editoriais
Continuamos com a promoção dos meus romances. Na semana passada estive a autografar na Feira do Livro de Madrid. Um sonho tornado realidade (espero que surjam mais ocasiões). Estive com leitores que já tinham El secreto del Nazareno e queriam continuar com El anillo de Boabdil. Se quiseres adquiri-los, deixo-te aqui um link para que os encontres rapidamente. Se gostas de comprar em livrarias (eu adoro), podes dar o título na tua livraria de confiança e em 2-3 dias terás o livro.
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E nada mais, continuamos em Feiras e apresentações.
Lemo-nos na próxima semana.
Antonio de Rosa.
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