Escribir contra la niebla

O cansaço de defender o que criaste

O cansaço de defender o que criaste
O cansaço de defender o que criaste Antonio de Rosa

Terminar um romance deveria assemelhar-se a fechar uma porta.

Depois de meses, por vezes anos, a escrever, a corrigir, a duvidar e a voltar às mesmas páginas, imagina-se que, ao publicar, chegará uma certa calma. Que o livro, finalmente, começará a caminhar sozinho.

Mas não é isso que acontece.

Publicar um romance não significa terminar o trabalho.

Significa começar outro.

Um menos literário, mais visível e, ocasionalmente, bastante mais áspero.

Quando o livro sai, começa a fase de o explicar, apresentar, recomendar, resumir, defender e recordar repetidamente que ele existe. É preciso falar dele nas redes sociais, enviá-lo para os meios de comunicação, contactar livrarias, preparar apresentações, solicitar entrevistas e procurar novas formas de contar o mesmo sem que pareça que se está a contar sempre o mesmo.

Ao início, tudo isso até entusiasma.

Depois de tanto tempo a trabalhar em silêncio, apetece mostrar o resultado. Dá gosto partilhar a capa, anunciar a data de publicação, explicar como nasceu a história ou apresentar as personagens.

O problema surge quando essa promoção deixa de ser uma celebração e se torna uma obrigação permanente.

Porque um livro desaparece muito depressa.

Durante umas semanas é uma novidade. Depois chegam outros lançamentos, outras capas, outros autores e outras campanhas. A atenção desloca-se e, de repente, um romance no qual investiste vários anos parece antigo só por estar publicado há uns meses.

Sentes então que deves dar-lhe um novo empurrão.

Partilhas uma crítica.

Recuperas uma fotografia de uma apresentação.

Publicas uma frase do livro.

Falas da documentação.

Recordas que ainda pode ser comprado.

E, enquanto o fazes, surge uma sensação incómoda: a de estares constantemente a pedir atenção.

Nem sempre é fácil distinguir entre promover uma obra e justificarmo-nos por tê-la escrito.

Às vezes temes ser insistente.

Outras vezes pensas que não estás a insistir o suficiente.

Vês autores que publicam diariamente, participam em eventos, aparecem nos media e conseguem manter os seus romances visíveis durante meses. E uma pessoa pergunta-se se deveria fazer mais.

Parece sempre que se poderia fazer mais.

Mais vídeos.

Mais publicações.

Mais contactos.

Mais apresentações.

Mais tempo dedicado a recordar que o livro continua lá.

Esse é um dos grandes desgastes de publicar: a sensação de que nunca podes abandonar totalmente uma obra.

Enquanto estás a escrever o próximo romance, ainda tens de sustentar o anterior. Enquanto corriges um novo manuscrito, deves continuar a falar do livro publicado. E enquanto tentas recuperar a vontade de escrever, uma parte de ti continua presa na promoção.

A obra terminou, mas a responsabilidade sobre ela não.

Existe também outro cansaço, mais difícil de explicar.

O de ouvir opiniões.

Quando um romance é publicado, deixa de te pertencer por completo. Cada leitor interpreta-o à sua maneira. Alguns emocionam-se com cenas que tu consideravas secundárias. Outros ignoram aquilo que te custou semanas a resolver. Há quem aponte erros, quem questione decisões e quem explique o que, segundo eles, deverias ter escrito.

Isso faz parte do ofício.

Publicar implica aceitar que já não controlas a leitura.

Mas aceitar não significa que seja sempre simples.

O romance pode receber elogios e, ainda assim, uma única crítica ficar a moer-te a cabeça durante vários dias. Pode vender bem e parecer-te pouco. Pode receber boas críticas e não alcançar a visibilidade que esperavas.

E então voltas a defendê-lo.

Explicas que está documentado.

Que determinados factos ocorreram assim.

Que aquela decisão narrativa foi consciente.

Que a personagem tinha de se comportar daquela maneira.

Embora, na verdade, um livro não devesse precisar que o autor permanecesse eternamente ao seu lado a explicá-lo.

A dada altura, teria de se sustentar sozinho.

Mas chegar a esse ponto nem sempre depende apenas da qualidade.

Depende da distribuição, da promoção, das livrarias, dos meios de comunicação, das recomendações, do momento em que aparece e dessa mistura estranha de trabalho, oportunidade e sorte que rodeia o mundo editorial.

Por isso, defender um romance pode chegar a ser esgotante.

Não porque se deixe de acreditar nele, mas precisamente porque se acredita demasiado.

Porque se sabe quanto trabalho contém.

Porque se recorda cada renúncia, cada noite de escrita e cada dúvida.

Porque se sente que, se deixarmos de falar do livro, este desaparecerá.

Talvez uma das aprendizagens mais difíceis do ofício consista em compreender que defender uma obra não significa estar sempre a falar dela.

Também é defendê-la ao não parar de escrever.

Construir uma trajetória.

Confiar que alguns livros encontram os seus leitores devagar.

Aceitar que nem tudo pode ser medido durante as primeiras semanas.

E entender que um romance não fracassa apenas por não estar a ocupar constantemente o centro da conversa.

Há livros que fazem barulho ao sair e são esquecidos depressa.

Outros avançam lentamente, de leitor em leitor, quase em silêncio.

Talvez publicar consista também em aprender a desapegar.

Em acompanhar a obra durante um tempo, dar-lhe todas as oportunidades possíveis e, depois, permitir-lhe encontrar o seu próprio caminho.

Embora custe.

Embora sintamos que ela ainda precisa que a saiamos a defender.

Embora ao olhar para trás continuemos a ver não apenas um livro, mas tudo o que deixámos dentro dele.

Acredita que um escritor deve falar constantemente dos seus livros, ou prefere descobri-los de uma forma mais natural?

Obrigado por continuar desse lado do ecrã.

Lemo-nos na próxima semana.

Antonio de Rosa

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